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Chrônica de ninar

  Do alto da inércia que me paira, assisto sentada ao deslizar de meu corpo sobre a lâmina brilhante de um punhal. Insistente sou em vagar nas horas tardas. Sinto trêmulos ponteiros a fragmentar as linhas certamente finitas de minha ímpar existência. Divagando observo aos furtos que o destino lança contra a tênue linha que me tece. E assim, a cada dia, encontro minúsculas elipses que tramam minha composição. Um dia serão tantas que me tornarão opaca. Esse processo de desmanche já me é dado a conhecer desde tenra idade, pois que vejo o chronos a devorar-me, mesmo antes de dar meus primeiros passos. Porém, engano do voraz que pensa findar minha essência na matéria. Não sabe ele que sou imortal. Lorena Barreto (29/04/2014)

Mistério de morte

Há muito esqueci quem eu sou Hoje sou o que era Ontem eu era alguém inexistente O que sou estava escondido Ah, como eu queria ser realmente Aquele ser inexistente Que hoje vai aos poucos esmaecendo. Lorena Barreto Escrito em 2010

Missiva do Céu

Observe os leves passos sobre a grama Acompanhados do frenético pulsar de um coração Tomado por sonhos E cheio de fôlego. Quem vê tal criatura se pergunta Como pode um ser tão forte Ser tão delicado como um diamante? Bruto brilho que reflete o sorriso cortante. Olhar denso que pede para ser decifrado Linhas ternas de uma face aveludada. Mãos que tecem seus próprios segredos E os guarda em seus mais profundos anseios Oh, da tua força jovial cantes a doçura. Terrena existência cheia de graça, te escondes atrás de rija postura, mas teus olhos não disfarçam. Eles revelam tua essência. Com tal incandescência cativas os que em ti fixam o olhar, mudos muitos ficam, sem saber o que falar. Mas graças à existência dos poemas que permitem expressar o indizível que só os artífices das palavras podem contar. Lorena Barreto 06/04/2014

Morrer é preciso!

Ostras, habitats naturais daqueles que escondem as palavras, dos que guardam a alma, dos que se perdem em silêncio. Retirar o mistério que as habita torna-se morte, dor que revela a luz mais viva, mais terna do que o sol. Nascimento do que existia sem ser. Lorena Barreto

Chá da Tarde com Woolf

Imagem
Virginal, eu a contemplo debaixo de um emaranhado. Descansa em alvura, insiste em deixar-me caminhando pelos nós que a revelam senhora das palavras soltas, esfíngicas. Observo seu turvo rosto de linhas arqueadas, delicadeza desnudada na face. São elas que contam sua vida, não as finas e longas sinas marcadas em suas fatigadas mãos. Seu olhar dança com a imensidão. Árdua tarefa decifrá-la. Fixar as retinas em seus olhos certeza é de obscuridade, profunda fragmentação,  vêm de suas íris labirínticas. Inutilmente, tento distingui-la da paisagem. Morta, tão inclinada para si mesma que o céu plúmbeo, sombrio, serve-lhe de vestido. Ignoto ser do crepúsculo, seus enigmáticos laços devoram-me tal qual Clarissa se perdeu nas linhas trêmulas, mortais, dos ponteiros reminiscentes.  Lorena Barreto

Encontrar-se

Por vezes tenho. Perda de identidade. A impressão. Eu sou. Vida. Você a viver em mim. Por tanto. Dar-te a vida. Portanto. Perda de identidade. Vão pensar que morri. Em vão. Em ti minha vida. Verei. Você sou. Vivo eu. Perco-me em ti. Em você. Vida. Lorena Barreto 12/11/2012

Identidade dadaísta II

- Como? Me questiono. Duas de mim. Tão diversas. Em mim mesma. Manifestam-se. Simultaneamente. Versam sobre. Por vezes em combate. Pessoas. Diferentes. Formas de ser eu. Lorena Barreto