domingo, 26 de abril de 2015

Crônica de um sonhador

       A chuva forte agitou as águas, Iara escondeu-se depois de seu canto, enquanto o tolo pescador, ainda no encanto, banha-se nas águas, como que procurando a misteriosa que outrora lhe cantara música bela, flamejante e dos homens enfeitiçante. Desaparecia ao longe sem que ele pudesse distinguir, ainda embriagado por aquela canção, se tudo o que sentiram fora verdade ou ilusão.
       "Iara, onde estás?", grita desesperado, "cansou-se tu de encantar? Envolveste-me em teu enleio e nem a ti consegues soltar". De repente, revela-se, mesmo que rapidamente, a Dona das Águas, também proprietária daquele homem. Veem-se seus longos cabelos negros que agora encobrem-lhe o rosto. Inutilmente tenta vê-la o pescador, tocá-la é vão, pois suas curvas fogem-lhe das mãos.
      "Os braços que outrora eu abraçava e se sentiam abraçar, hoje como que distantes não mais se deixam tocar", pensou o pescador sem desatino, ao lentamente lembrar da Dama dos Rios que seus olhos beijaram numa noite de luar.
        Triste e bela história, a lua nos contou, a linda Iara e um pescador que se afogaram nas lágrimas de Eros, o grego deus.

Lorena Barreto

23/09/2014


O último tango em Paris

Os olhos conversam,
tocam memórias,
beijam-se ardentemente.
No cruzar das íris,
tocam-se as almas
nas impossibilidades
do espaço.

Quem disse que para se amarem,
os corpos precisam estar perto?
Não se sabe que anos-luz distantes
andam alguns caminhantes tão próximos
na estrada do amor?

Mas aí estão os namorados
de ocasião.
Namoram-se à distância dos olhares
curiosos,
INVASIVOS,
invejosos.

Amam-se no silêncio das palavras caladas,
das mãos atadas,
nos olhos que se encontram,
e que, por vezes,
marotamente,
não se deixam mirar,
como que se convidassem para dançar
um tango argentino
no palco encarnado da existência.


Lorena Barreto

13/01/2015


A Letra Escarlate

Cada separação
é uma navalha aguda
na carne fresca
de corpos
nus

Retornos curam
feridas rasgadas
nas almas presas
dos amantes
alados

Desejos eternos
anseios de hora marcada
para aqueles que não têm fim
nem perdão
nós

Atos desmedidos
moram no compasso
dos olhos que não se saciam
nos infinitos minutos
vestidos de segundos
que nos abraçam.

Lorena Barreto


21/10/2014




Obs. Somente em 25/04/2015, definiu-se o título desse poema.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Chrônica de ninar

 Do alto da inércia que me paira,
assisto sentada ao deslizar de meu corpo
sobre a lâmina brilhante de um punhal.
Insistente sou em vagar
nas horas tardas.
Sinto trêmulos ponteiros a fragmentar
as linhas certamente finitas
de minha ímpar existência.

Divagando observo aos furtos
que o destino lança contra
a tênue linha que me tece.
E assim, a cada dia, encontro minúsculas
elipses que tramam minha composição.
Um dia serão tantas que me tornarão opaca.

Esse processo de desmanche
já me é dado a conhecer desde tenra idade,
pois que vejo o chronos a devorar-me,
mesmo antes de dar meus primeiros passos.
Porém, engano do voraz que pensa
findar minha essência na matéria.
Não sabe ele que sou imortal.

Lorena Barreto

(29/04/2014)

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Mistério de morte

Há muito esqueci quem eu sou
Hoje sou o que era
Ontem eu era alguém inexistente
O que sou estava escondido
Ah, como eu queria ser realmente
Aquele ser inexistente
Que hoje vai aos poucos esmaecendo.

Lorena Barreto

Escrito em 2010

domingo, 6 de abril de 2014

Missiva do Céu

Observe os leves passos sobre a grama
Acompanhados do frenético pulsar de um coração
Tomado por sonhos
E cheio de fôlego.

Quem vê tal criatura se pergunta
Como pode um ser tão forte
Ser tão delicado como um diamante?
Bruto brilho que reflete o sorriso cortante.

Olhar denso que pede para ser decifrado
Linhas ternas de uma face aveludada.
Mãos que tecem seus próprios segredos
E os guarda em seus mais profundos anseios

Oh, da tua força jovial cantes a doçura.
Terrena existência cheia de graça,
te escondes atrás de rija postura,
mas teus olhos não disfarçam.
Eles revelam tua essência.

Com tal incandescência cativas os que em ti
fixam o olhar, mudos muitos ficam,
sem saber o que falar.
Mas graças à existência dos poemas
que permitem expressar
o indizível que só os artífices das palavras podem contar.



Lorena Barreto 06/04/2014

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Ilusão de Ótica

Tal qual cena - fulgor
foi quando conheci tua graça.
De tal forma teu olhar
penetrou no meu
que desde então
habitas nesta singela
casa.

Ah, já não é possível enxergar nada
além de ti,
mesmo que a mim não vejas.
E, talvez, em sua essência
é dado a conhecer que és
alvo da paixão
que te dedico.

Vou me manter atado à esperança de
(quem sabe um dia...)
habitar em você.

Lorena Barreto 03/04/2014

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